domingo, 5 de agosto de 2018

Phalanstère du Saï: uma colônia socialista francesa em Santa Catarina


Perspectiva do falanstério fouerista. Fonte: Archives Nationales.

O século XIX começou com incertezas em relação à igualdade social. Após a Revolução Francesa,  a fome e a miséria assolavam toda a Europa. A Revolução Industrial que surgiu novamente entre 1820 e 1840 contribuiu para o agravamento da situação de miséria e fome no velho continente. Diante deste cenário, muitas teorias utópicas surgem para pôr um fim à desigualdade social, pois segundo Fourier, as Constituições Republicanas foram incapazes de dar uma solução satisfatória aos problemas socioeconômicos da era industrial. Entretanto, quando colocadas em prática, essas teorias se mostram anarquistas.

O galês Robert Owen, o francês Charles Fourier, e os alemães Karl Marx e Friedrich Engels, foram os principais teóricos socialistas do século XIX. Fourier, Owen e Engels foram os grandes teóricos desse movimento, pois suas teorias mostraram-se verdadeiros fracassos. Para não adentrarmos muito em cada teoria, focaremos na teoria que trouxe 200 franceses para fundar uma colônia socialista francesa em Santa Catarina em meados do século XIX.

A teoria utópica de Charles Fourier

Retrato de Charles Fourier
Charles Fourier nasceu em 7 de abril de 1772 em Besançon e faleceu em 10 de outubro de 1837 em Paris. A proposta social de Fourier se baseava na falange ou no falanstério, os quais o funcionamento é coletivo. Os falanstérios eram grandes agrupamentos de produção e de consumação, nos quais cada falansteriano praticava várias profissões por alternância, o que lhes permitia desenvolver inúmeras habilidades laborais. Os rendimentos eram divididos entre o capital, o trabalho e o talento.

Fourier não esperava nada da ação política, nem da intervenção do povo, e nem mesmo do recurso à violência. A passagem da sociedade atual ao regime societário, segundo ele, deveria acontecer progressivamente e pacificamente por diferentes fases. A criação do primeiro falanstério deveria suscitar por contágio a criação de outro falanstério, levando então à ascensão do regime societário.

A doutrina fourierista se apresentava como uma ciência social, a qual sua preocupação maior era a experimentação de suas próprias teorias. Fourier multiplicou a diáspora com a ajuda do governo e de alguns nobres que financiaram sua primeira experiência em um falanstério. Ele mesmo participou da primeira tentativa de realização em Condé-sur-Vesgre em 1833. Ele reuniu 1620 pessoas que praticavam atividades sociais concebidas sem deixar de expressar livremente suas paixões e suas tendências naturais. Seus discípulos continuaram a defender a "realização progressiva" e experimental imediata de suas ideias.

Le Phalanstère du Saï: a colonização francesa em Santa Catarina

Para entendermos um pouco sobre o fourierismo no Brasil, precisamos saber como essas ideais chegaram ao continente sul-americano. A teoria fourierista desembarcou no continente com dois grandes nomes que foram responsáveis por promover as ideias fourieristas no Império de Dom Pedro II, são eles: o engenheiro francês Louis Vauthier e o médico homeopata Benoît Jules Mure.

A teoria utópica fouerista teve uma ampla divulgação na província de Pernambuco pelo engenheiro francês Louis Vauthier. Vauthier era engajado como conselheiro dos trabalhos públicos em Recife, capital da província de Pernambuco. Ele coordenou uma equipe de engenheiros franceses e alemães de 1840 a 1846. Durante esse período, ele propôs a construção das estradas de ferro, a socialização do curso d'água, e a preservação das paisagens naturais. Vauthier também elaborou um projeto visando o controle do crescimento urbano, dando impulso aos trabalhos públicos de infraestrutura, como, as ruas, os cemitérios, as pontes e o teatro. Vauthier queria fundar seu próprio falanstério fourierista, o que se comprova em seus diários, em que ele relata suas leituras sobre a ciência de Fourier, e a vontade de instalar um falanstério na província de Pernambuco. Entretanto, esse desejo não se concretizou.

Teatro Municipal - Rio de Janeiro, século XIX. Fonte: Biblioteca Nacional.

A chegada do médico homeopata Benoît Jules Mure no Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil, aconteceu alguns meses após a instalação de Vauthier em Recife. Diferentemente de Vauthier, que possuía um contrato profissional, a intenção de Mure era proceder com a experimentação concreta das ideias falansteristas em território brasileiro. Munido de cartas de recomendações endereçadas a diversos homens políticos do Império, Dr. Mure não teve problema em publicar no dia 17 de dezembro de 1840 no Jornal do Comércio, um artigo esboçando suas ideias, o que lhe rendeu um encontro com o Imperador alguns dias mais tarde. Em seguida, ele obtêm a permissão de embarcar num navio da Marinha Imperial para procurar um local que pudesse servir a seu projeto.

Nesse período, Mure vê a necessidade que o Brasil tem em atrair colonos para as vastas terras de norte a sul do país, sobretudo no sul, onde a Guerra dos Farrapos lutava contra o governo imperialista, criando então a República Riograndense, atual Estado do Rio Grande do Sul. Enquanto isso, na França, muitos operários habilidosos estavam desempregados. Então, Mure une a necessidade de ambos os países e recebe em 11 de dezembro de 1841 no Rio de Janeiro, o navio La Caroline que havia zarpado há alguns meses antes do porto de Le Havre, na França.

Imagem de satélite de São Francisco do Sul. Ano 2018.

Antes de aportar em Santa Catarina, Mure havia recorrido à polícia para assegurar-se que seus equipamentos e provisões estivessem o tempo todo sob seu controle. Os colonos franceses, Jamain, Derrion e alguns outros, chegaram em São Francisco do Sul sob tensão, os quais solicitaram intervenção do Governador da província. Esse defendeu os direitos do Dr. Mure, que pode seguir viagem com 16 franceses para a terra do Saí, localizada no continente na frente do porto de São Francisco do Sul. Os outros decidiram ficar na ilha de São Francisco até que as terras no continente perto do Saí fossem compradas, onde eles fundariam o Phalanstère de Palmital.

No início de 1842, as duas colônias puderam, sem muita dificuldade, começar suas operações. Com exceção da escolha do terreno que receberia o palácio do falanstério e a construção de uma residência comunitária que abrigaria três famílias na colônia de Mure. Infelizmente, vários fatores contribuíram para que a verdadeira planta do falanstério não fosse executada: a localização, a falta de materiais e a vasta floresta virgem. Diante desses fatos, os conhecimentos dos trabalhadores industriais e dos intelectuais não eram de grande ajuda num ambiente um tanto isólito para os letrados colonizadores.

Mure menciona em 1843 a chegada de outro navio, Le Turenne, que trouxe mais de 120 homens para a colônia do Saí. Em 1844, Mure já havia partido do Saí, dizendo que ele havia deixado para as colônias: "cinq cents bras libres". Pode parecer exagerado que duzentos franceses estivessem nas colônias, entretanto, o conde de Ney, representando o governo francês no Brasil, afirma que um número elevado de franceses chegava nesse meio tempo. Entretanto, o conde de Ney solicitou às autoridades francesas que interrompessem a vinda de novos colonos ao Saí, pois ele estava impressionado com o número de pessoas que, após voltar de Santa Catarina, vinham bater na sua porta para pedir ajuda.

Apesar disso, após um ano de colonização no Saí, os colonos haviam construído: dois fornos para forjas, algumas embarcações de madeira, uma serralheria a vapor, 17 serras, uma serralheria hidráulica, duas olarias, uma máquina de descascar arroz, estradas e pontes. Entretanto, essas realizações não contentaram os colonos franceses, que em 1843 contava com apenas 9 residentes franceses no falanstério. Em 1844, as duas colônias já não existiam oficialmente. Não é sabido precisamente sobre o paradeiro dos colonos franceses, mas há registros de alguns que foram para o Uruguai, outros para os Estados Unidos, mas a maioria retornou para a França. Um francês permaneceu na antiga colônia, Léon Ledoux, deixando um descendente.

Dr. Mure foi para o Rio de Janeiro em 1843 onde permaneceu até sua morte em 1848. Durante esse tempo, ele instalou seu consultório de homeopatia onde ele cuidava dos doentes necessitados. Ele cria algumas polêmicas com médicos alopatas, e funda o primeiro Instituto Homeopata do Brasil. Mesmo após o fracasso das suas duas colônias fourieristas, ele continua com suas ideais e pensamentos de Fourier. Mure publica com outros simpatizantes fourieristas o primeiro jornal socialista do Brasil e da América Latina, O Socialista da Província do Rio de Janeiro, que era difundido também no Recife pelo engenheiro Vauthier.

Por fim, a utópica colônia de Mure durou apenas um ano. As teorias socialistas pregadas nos últimos dois séculos nos mostram que quando são colocadas em práticas, elas se mostram verdadeiros fracassos, mas existe um sistema socialista que prosperou e causou a indignação da igreja católica e dos reinos de Portugal e Espanha: as reduções jesuíticas.


Fontes:

Nathalie Brémand (2009). "Charles Fourier (1772-1837)". Les premiers socialismes - Bibliothèque virtuelle de l’Université de Poitiers.
GÜTTLER Antonio Carlos , « Un prélude brésilien à l’expérience de Reunion ?. Le phalanstère du Saï, 1841-1843 », Cahiers Charles Fourier , 1993 / n° 4.

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