segunda-feira, 11 de junho de 2018

Südarm: die andere Heimat

Bella Alliança, V Distrito de Blumenau, hoje área central de Rio do Sul - 1912. Fonte: Arquivo Público de Rio do Sul.

Os novos colonizadores que subiram às margens do rio Itajaí-Açu no fim do século XIX, se depararam com inúmeros obstáculos para chegar às terras do Alto Vale do Itajaí. Além da densa mata atlântica, os novos colonizadores precisaram lidar com os nativos da região: os Xokleng. Vale lembrar que os Xoklengs foram os últimos indígenas a terem contato com o homem branco, sendo que desde o século XVI os jesuítas e os bandeirantes tinham contato com os outros dois povos indígenas: os Carijós, que se encontravam na faixa litorânea, e os Kaigang, que ocupavam as regiões dos vales.

Diante desses obstáculos, preparar a área para receber os compradores das novas terras era primordial. Um pequeno povoado começa a formar-se no atual centro do bairro Bela Aliança em Rio do Sul. Os novos moradores que ali chegavam, eram na sua maioria, germânicos. Usamos o termo germânicos para designar os germanófonos, pois a Alemanha se unificou somente em 1871, formando então o Deutsches Kaiserreich, o Império Alemão, que durou até 1918. Por isso, muitos dos germânicos que chegavam em Santa Catarina no século XIX, falavam diferentes variações da língua alemã: os dialetos regionais que ainda estão muito presentes no interior de Santa Catarina, como, por exemplo, o Hunsrückisch, o Pommersch ou Plattdeutsch, e o Limburgisch. Os colonizadores usavam o termo Deutsch para referir-se aos diferentes dialetos falados por eles na nova terra. A língua alemã obtêm um padrão com a tradução da bíblia por Martin Luther em 1453, o qual unificou os dialetos germânicos no Hochdeutsch. O conceito de Hochdeutsch, alemão padrão, começa a ganhar força na I. Orthographische Konferenz, a 1ª Conferência Ortográfica, convocada pelo governo da Prússia em 1876. Veremos mais sobre os dialetos germânicos em outro momento.

Centro de Rio do Sul na década de 30. Fonte: Arquivo Público de Rio do Sul.

Südarm: die andere Heimat

Südarm
, ou Braço do Sul em português, foi o povoado que se formou e deu origem à cidade de Rio do Sul no final do século XIX. Podemos dizer que nos falta um estudo mais minucioso sobre a colonização alemã na nossa região. Muitos dos documentos que estão em língua alemã nunca foram traduzidos para o português, ou estão em mãos dos descendentes, o que compromete a veracidade de muitas informações que conhecemos hoje. Um estudo mais detalhado nos jornais Blumenauer Zeitung e Colonie Zeitung será conduzido para tentar preencher as lacunas do início da colonização alemã na região do Alto Vale do Itajaí, além de livros escritos por pesquisadores alemães que nunca foram publicados no Brasil, como, por exemplo, Das Hospital auf dem Palmenhof: Pionierarbeit im Siedlungsgebiet deutscher Einwanderer in Südbrasilien, livro que versa sobre o famoso hospital de Ibirama e o trabalho pioneiro na área de assentamento de imigrantes alemães no sul do Brasil.

O Agricultor - Edição de 28 de julho de 1928. Jornal de Rio do Sul publicado em português e alemão. Fonte: Hemeroteca de Santa Catarina.

Um pouco da vida árdua dos recém-chegados à Südarm pode ser encontrada no livro, Rio do Sul - uma história, organizado pelos pesquisadores João Klug e Valberto Dirksen, publicado no ano 2000. Os colonos do pequeno povoado tiveram inúmeros conflitos com os indígenas da região. O Blumenauer Zeitung noticiou em 20 de setembro de 1885, que o colono italiano Antonio Cerati, foi ferido por uma flecha quando caminhava pela sua plantação na comunidade de Lontras, e ao tentar escapar, acabou caindo e foi morto a pauladas por dois índios. No mesmo momento, o seu filho de 15 anos que se encontrava na moagem de grãos, foi atingido por uma flecha e morto.

Die andere Heimat, o outro lar, apresentava dificuldades iguais ou piores do que os lares europeus dos colonos. O próprio Fritz Müller relatou em suas correspondências à irmã na Alemanha, que os assaltos por indígenas estavam assustando os colonos. O governo imperial havia desativado em 1879 a Companhia de Pedestre, que era na verdade uma companhia para afastar os índios das terras compradas pelos colonizadores, o que facilitou para que os confrontos entre colonos e índios acontecesse. Em 1904, quase duas décadas mais tarde, os ataques continuavam, foi então que os bugreiros entraram em ação. Os bugreiros eram homens caboclos que prestavam serviços de "proteção" aos colonos, aos viajantes, ou a qualquer pessoa que precisasse de serviço de guarda. Eles foram responsáveis por inúmeros massacres indígenas que ocorreram no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Martinho Marcelino de Jesus, ou simplesmente Martinho Bugreiro, era o mais conhecido entre os bugreiros, devido à crueldade nos ataques contra os indígenas. Veremos mais sobre Martinho Bugreiro em outra ocasião.

Em 1912, Südarm passou de povoado para distrito, o V Distritro de Blumenau: Bella Alliança. A economia do distrito era baseada na agricultura, a qual impulsionava a economia. O progresso avançava no V distrito, o que levou um grupo de políticos em 1930 a pleitar a emancipação política e econômica do Bella Alliança. Houve uma grande hesitação da parte de Blumenau em aceitar a emancipação do seu distrito, notadamente pela perda econômica que Blumenau sofreria. Na época, os jornais da cidade, como, O Agricultor e A Cidade, destacavam o potencial e os porquês Bella Aliança deveria ser emancipado. O distrito tinha correio, energia elétrica, hospital, hotéis de primeira ordem, e um banco, o Banco Agrícola. Além disso, noticiavam o fim das lutas entre indígenas e colonos.

Hotel no distrito de Bella Alliança. Fonte: Arquivo Público de Rio do Sul.

Em 1930, um grupo de representantes de várias localidades do distrito, que hoje são as cidades de Taió, Pouso Redondo, Rio do Oeste e Lontras, se reuniram com o governador do Estado para tratar sobre a emancipação do distrito. Um nome político que se destacou e um dos principais emancipacionistas, foi Ermembergo Pellizzetti, o qual lutou incansavelmente para que Bella Alliança se tornasse um município. Certamente muitos outros nomes figuram no processo de emancipação, mas documentos mostram o quanto Pellizzetti lutou para que os riosulenses fossem independentes politicamente e administrativamente de Blumenau. A emancipação de Rio do Sul ocorreu em 15 de abril de 1931.

Centro de Rio do Sul na década de 50. Fonte: Arquivo Público de Rio do Sul.

Südarm - Bella Alliança - Rio do Sul : uma história a ser contada

É sabido que muitos documentos sobre o povoamento de Rio do Sul foram perdidos ao passar dos anos, evidentemente por causa das cheias que atingem à cidade frequentemente, ou por extravio. Devemos ser cautelosos ao falarmos sobre colonização alemã e italiana em Rio do Sul e região, haja vista que brasileiros e indígenas já se encontravam nessa região. Entretanto essas informações não constam em muitos livros que versam sobre a imigração alemão e italiana em Santa Catarina. No livro, Das Clareiras da Barra do Tayó: um registro da oralidade histórica, do escritor e professor taioense, Fiorelo Zanella, um documento menciona a existência de inúmeras famílias brasileiras antes da chegada dos imigrantes alemães e italianos à Taió. Isso mostra que o termo colonizadores não pode ser empregado em determinadas partes da história. Além disso, muitos livros e documentos em alemão e italiano de pessoas não tão conhecidas nunca foram traduzidos para o português. Peguemos como exemplo: Rio do Sul. Os documentos ligados a Francisco Frankenberg e Ermembergo Pellizzetti são os grandes destaques no processo de colonização e emancipação de Rio do Sul. Contudo, muitos outros documentos, livros e cartas possuem informações relevantes sobre Rio do Sul e região, mas o desinteresse da população e o não domínio das línguas alemã e italiana contribuem para a desinformação.

É necessário que resgatemos essa parte da história não contada. Muitos pesquisadores alemães, italianos e brasileiros publicaram suas obras em alemão, italiano e francês, mas não vêem interesse em publicar em português. O desinteresse da população brasileira força os pesquisadores a publicar somente em suas línguas nativas, ou em línguas ditas "importantes". Um exemplo desse panorama é a pesquisadora e doutora Beatriz Pellizzetti Lolla, filha de Ermembergo Pellizzetti, que publicou na França seu livro, L'idéologie et la créativité de l'immigration Européenne au Brésil, sobre a imigração europeia no Brasil. Diante disso, expresso minha preocupação com as futuras gerações que estão condenadas à história parcialmente contada.

Fontes:

O Agricultor, 10/05/1935, p.1.
Cartas Fritz Müller. Blumenau. Tomo XXXVIII.
Rio do Sul: uma história / João Klug, Valberto Dirksen, organizadores. - Rio do Sul: Ed. da UFSC, 1999. 315p.:il.
Arquivo Público de Rio do Sul.
Arquivo Público de Periódicos de Santa Catarina.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Wilhelm von Plüschow: o idealizador da fotografia de nu artístico no século XIX

Retrato de Wilhelm von Plüschow feito pelo seu primo Wilhelm von Gloeden em 1900. Fonte: Peoplepill. Schloss Plüschow em 1988. Font...